sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A VELHA

Acordou naquela manhã disposto a fazer alguma coisa diferente. Não sabia bem o que, mas queria olhar o mundo. Resolveu pegar uma estrada qualquer e dirigiu a esmo, até chegar a uma pequena cidade dessas que embora perto das grandes capitais, ainda conserva sua história. Percebeu que a cidade estava apinhada de turistas, malandros, casais querendo sair da rotina da semana, crianças gritando, chorando, correndo, rindo. Uma feira popular com os mais diferentes tipos de artesãos exibia suas cores. Ele caminhava também a esmo, observando por trás dos óculos escuros, as diferentes paisagens que o momento descortinava. Resolveu sentar num boteco com mesas ao ar livre, que disputavam o calçamento com os passantes. Pediu uma cerveja que veio estupidamente gelada e acendeu um cigarro, pronto para ouvir e ver. Ao seu lado, um casal reclamava do garçom, da demora em entregar os pedidos, do quanto a praça estava cheia, da falta que fazia um determinado cantor daquele bar, que por muitos anos cantou ali e tinha um codinome de pássaro. Junto com o casal estava uma senhora idosa, que só ouvia, totalmente neutra às reclamações. Embora calada, seus olhos denunciavam o enfado que sentia, talvez por estar ali, ouvindo aquela conversa chata, talvez por não ter mais a independência de outrora para poder sumir naquele instante. Ele pensou: “Que chato ser velho! Ficar à mercê de filhos, noras, genros ou netos, sem muitas vezes escolher seu próprio destino.” “Ah! – ele lembrou – e também existiam os enfermeiros ou acompanhantes que muitas vezes são destinados a cuidar de alguém que passa a ser considerado velho sinônimo para muitos de incapaz.” A mulher idosa tamborilava uma das mãos sobre a mesa, demonstrando sua impaciência. A mulher mais jovem – ele não havia chegado à conclusão se era filha ou nora, também poderia ser neta – falava sem parar. O marido concordava com veemência sobre muitas das reclamações da mulher. “A culpa era mesmo do governo, que havia possibilitado aos mais pobres estar num lugar como aquele, desfrutando os mesmos privilégios nossos” – dizia ela. Ele resolveu olhá-la com o rabo do olho, pois o marido estava bem em frente a seu raio de visão. Ela usava um cabelo liso, modelo escova definitiva, preto como a asa da graúna, uns óculos escuríssimos, com aro de onça, combinando com sapatos do mesmo motivo. Camiseta branca e jeans de grife. O marido fazia o tipo musculoso de academia, tatuagem aparecendo sob a manga da camiseta também branca, óculos espelhado, celular de última geração sobre a mesa. Falando nisso, a mulher passava rímel, utilizando um pequeno espelho acoplado ao celular. Moderníssima ou futilissima? Ele também não sabia concluir. A velha olhava ao redor como que esperando algo que caísse do céu para tirá-la dali. Seus olhos volta e meia se arregalavam diante dos transeuntes: um casal de lésbicas – uma com a cabeça raspada usando coturnos, abraçada com uma mocinha bem magra, anoréxica talvez, repletas de tatuagens de todas as cores pelo corpo, em meio aos também inúmeros piercings. Um homem bem gordo, comendo um pastel, enquanto a mulher e os quatro filhos – um de colo – caminhavam a sua frente, olhando as novidades nas barracas da feira. Uma mesa com várias mulheres que falavam inglês chamava a atenção pelas risadas altas e o efeito é claro, da caipirinha bem brasileira. O hippie - tinha uns sessenta e cinco anos, mas ainda era hippie – com seus cabelos compridos, grisalhos, presos em um rabo de cavalo, fumando um cigarro de cravo e vendendo jóias de prata feitas por ele mesmo, impressionava os possíveis compradores. Exibia sua arte diante dos colares e anéis bem feitos, mesclados com pedras brasileiras, sucesso garantido em terras estrangeiras. Ainda havia o vendedor de amendoim, castanhas de caju torradas e claro, um monumental quebra-queixo, repleto de pedaços de coco.
Ela não percebia que ele a observava. Trazia no rosto, além da tristeza estampada no olhar, um batom com um tom vinho talvez carregado demais para sua idade, mas quando ele pensou isso, imediatamente lembrou que pudesse ser preconceito, pois quem disse que cor tem idade? Existe tanto jovem preto-e-branco e tantos velhos coloridos... Ou vice-versa, sabe-se lá... O cabelo era bem arrumado, tingido de castanho escuro, o que lhe conferia uns quinze anos menos. Nenhuma aliança na mão esquerda, o que poderia significar viuvez ou separação, já que apenas o genro, sim genro, pois ele havia tirado os óculos por um momento e exibia traços totalmente diferentes da senhora idosa. De qualquer forma o casal agia como se a velha não estivesse ali. Ele se lembrou de quantas vezes já havia presenciado uma cena parecida: a família enorme ou não, sentada à mesa de um restaurante, comemorando alguma coisa ou não, e a velhinha ou velhinho sentados na ponta da mesa, longe do epicentro das conversas, fofocas, qualquer movimento, pois ninguém tem paciência para repetir (ou escutar) a mesma história. E os velhinhos ficam lá, comendo sozinhos, alheios ao burburinho, embora estejam também ali. Vez ou outra alguém se lembra de lhe dirigir a palavra, mais por educação do que por respeito, porque para a maioria das pessoas – ele pensou – velhice é melhor de longe, velhos são os outros. Valorizado é o último bebê que nasceu ou que está por vir. Questão mesmo de sua presença apenas na hora da foto, afinal precisam provar o quanto se esforçaram para mantê-los ativos, participativos na vida familiar. E os velhinhos se esforçando na figuração, tal qual a senhora da mesa ao lado, querendo mais é se ver livres do barulho, do falatório, querendo encontrar seus semelhantes, para enfim trocarem bulas, receitas, indicações de médicos, aula de dança de salão, biriba, novenas, tricô e crochê, capítulos da novela, fotos dos netos... Quanta coisa melhor pra fazer do que discutir sobre política, a vida dos outros, o excesso ou a falta, sem realmente colocarem a mão na massa! Os jovens talvez não suportem mesmo é o olhar dos velhos sobre eles, o olhar de quem diz: “Não perca seu tempo com besteiras! Seja simples, seja humano! Viva a vida!” Como alguém no fim da vida pode celebrá-la e querer simplificar tudo? É só observar que a maioria dos velhotes usa roupas e sapatos confortáveis, tênis e moletom, e os familiares ao redor querem que eles se vistam melhor, “não com roupa de velho!” Como a velhice incomoda. Ele bebeu mais um gole e acendeu outro cigarro. O genro chamou o garçom e reclamou que o frango à passarinho que havia pedido há cinqüenta minutos ainda não havia chegado, enquanto que três mesas a frente, um casal que chegou depois deles, já estava comendo! Um absurdo, um boteco desorganizado, o garçom tentando justificar que a culpa era da cozinha que confundiu os pedidos, a filha dizendo que a culpa era da cozinha porque o garçom era atrapalhado, o genro mandando cancelar o pedido e a velha querendo que um buraco se abrisse no chão para ela sumir dali. A filha decidida resolveu pedir a conta e o genro levantou-se bem devagar para ir lá dentro do boteco pagar, pois a maquininha eletrônica de pagamento ainda não vinha na mesa, como nos restaurantes mais modernos ou chiques. A filha ficou esbravejando que isso também era um absurdo ao mesmo tempo em que sacava seu celular-espelho e aplicava uma camada de batom brilhante, para essa operação tirou os óculos e ele agora pode observar os mesmos traços da velha. Esta observava a filha passando batom com uma cara de pena, como quem pensasse: “Não se iluda, pois tudo passa.” Nesse momento a velha senhora se deparou com o olhar dele em seu rosto. Fitou-o com um misto de interrogação e curiosidade, como quem não entendesse o porquê de um rapaz estar olhando pra ela. Ele esboçou um leve sorriso, amigável, solidário. Ela olhou-o bem séria e por um momento ele temeu que ela perguntasse qual era o problema para ele fitá-la tanto. Ele tirou os óculos – melhor encarar as pessoas, as coisas, a vida de cara limpa – e sorriu. Desta vez um riso largo, sincero, mais uma vez solidário, sobretudo humano. O genro vinha voltando, já pedindo que elas se levantassem para ir embora. A mulher pediu para que ele a deixasse acabar o copo de cerveja, mas ele resmungou que já era tarde, ainda precisavam passar na casa da mãe dele. Ela levantou-se, pegou sua enorme bolsa dourada e foi andando atrás dele. A velha começou a se levantar com dificuldade, esboçou um esgar de dor – todos os velhos têm dores, sejam elas de que tipo for – apoiou-se na bengala que estava ao lado e antes de começar a caminhar abriu um lindo sorriso – ela deveria ter sido muito linda quando jovem, ele pensou – e desejou-lhe um lindo dia. Ele devolveu o sorriso e acenou com a mão, desejando-lhe o mesmo. Ela saiu atrás do genro e da filha que caminhavam lá na frente. Ele apagou o cigarro e resolveu que a partir dali não fumaria mais. Quanto menos névoa tivesse ao redor dos olhos, mais claramente enxergaria.

3 comentários:

felipe lima disse...

Essa vontade de sair e olhar o mundo...
É permanente e perturbadora.
Mas, absolutamente mais o que isso, é libertadora.
Você falou sobre mim hoje.
Abraço.

Cara de 30 disse...

Ahn... Não dá pra comentar o seu texto, não. Só digo parabéns e pronto.

Michele Moura disse...

"mas quando ele pensou isso, imediatamente lembrou que pudesse ser preconceito, pois quem disse que cor tem idade? Existe tanto jovem preto-e-branco e tantos velhos coloridos... Ou vice-versa, sabe-se lá..."

"Ele apagou o cigarro e resolveu que a partir dali não fumaria mais. Quanto menos névoa tivesse ao redor dos olhos, mais claramente enxergaria."

Meus Deus, que texto lindo! Que lição!