“Dois caçadores dividem uma barraca. Um deles pergunta:
- E se aparecesse uma onça agora?
- Eu dava um tiro nela.
- E se você estivesse sem arma?
- Eu usava o facão.
- E se você estivesse sem facão?
- Eu subia numa árvore.
- E se não tivesse árvore?
- Eu corria.
- E se você estivesse paralisado de medo?
- Pô, você é meu amigo ou amigo da onça?”
Piada da década de quarenta, quando o cartunista Péricles criou o garçom que ele chamou de “Amigo da Onça”.
O final de 2008 e o ano de 2009 foram anos marcados por “amigos” assim.
Pessoas que fizeram parte de minha vida por um longo e intenso período, compartilhando alegrias, tristezas, confidências, almoços, jantares, praia, cinema,trabalho, etc., e que um belo dia resolveram – digamos assim – “puxar meu tapete” de uma só vez.
E os exemplos variaram: não só quem trabalhou comigo anos a fio e a relação ultrapassou o coleguismo profissional, se expandindo para o pessoal com marido, filhos, viagens em comum, mas também aqueles a quem você acredita serem seu “melhor amigo”.
O mais interessante é que TODOS, após algum tempo, me procuraram COMO SE NADA HOUVESSE...
Quem me conhece e mora no lado esquerdo do meu peito, sabe que não consigo ser hipócrita, puxa-saco ou qualquer sinônimo desses. Certa vez num processo terapêutico, ao narrar um sonho que tive, a interpretação do profissional foi a seguinte: “ Você não guarda rancor, raiva, não perde tempo; quando você decide matar alguém em seu coração, simplesmente essa pessoa morre como se fosse vida real.” De fato, é assim que sinto. Só que nesses exemplos, a “morte” em meu coração foi bastante dolorosa. Foi carregada de decepção, de anos de convívio e histórias, de sentimentos onde me senti “usada”. Sim, só acontece isso se nós deixamos, mas acreditei piamente que essas pessoas eram A-MI-GAS.
A dor se espalhou como diz a música “no corpo, na alma e no coração”. Decepção profunda.
Agora, quase no finalzinho do ano, época em que muitos se tornam “crianças boazinhas” para não serem esquecidas pelo Papai Noel, é redundante dizer que a hipocrisia impera. Fujo de reuniões, almoços, jantares, encontros, sejam eles familiares ou não, onde “amigos da onça” estejam. Tapinha nas costas nunca me disse nada e agora, menos ainda. Desenvolvi um “filtro invisível”, quase uma ressonância magnética, para manter uma boa distância de pessoas assim. Vi de perto o lado B daqueles que eu tanto prezava. E não gostei.
Nas previsões do começo de 2009, falaram em transformações profundas. De fato, elas aconteceram (acontecem ainda). Já substituí o choro pela razão. Melhor assim, nesse caso. Pássaros de penas iguais voam juntos. E eu me livrei das hienas que me espreitavam...
O melhor da história? Pude perceber quem sempre esteve ao meu lado, mesmo à distância. E por anos a fio, em alguns casos. Valorizo cada minuto que tenho com esses, verdadeiros amigos.
Pessoas erram? Claro, somos humanos. Mas se fazerem de desentendidos, fingir que nada aconteceu, isso é demais pra minha confiança. E cruel com meu coração. Não amo as pessoas na medida do meu interesse e sim – e somente – pelo que elas são no melhor estilo gente e pelo que trocamos juntas.
Nunca mais isso acontecer é quase improvável, mas como dessa vez os cortes foram profundos e as cicatrizes demoraram a fechar, ouso dizer que aprendi mais uma lição de “não-relacionamento”. Triste, mas real.
Encerro o ano de alma liberta e em paz total com minha consciência. E isso não tem preço.
