Passei o último domingo visitando um asilo. Homens e mulheres, separados, mas juntos no abandono, na solidão.
Já participei de muitos trabalhos voluntários, mas asilos e orfanatos agregam tantas diferenças entre nascimento e finitude que é impossível não sairmos de ambos revendo nossas próprias vidas. Ou maneira de viver...
Em entidades públicas ou do Governo, sempre falta um pouco de tudo. Do material ao sentimental. Em mutirão podemos sempre nos unir e prover por algum tempo os bens materiais: fraldas, alimentos, remédios, etc. Já quando entramos na esfera dos sentimentos...qualquer ajuda é bem-vinda e aceita.
Mesmo não sendo novata na área, o que mais me dói é a despedida. Invariavelmente cronometro os minutos que faltam para, quando ao abraçar alguém, ouvir a seguinte frase: “Agora que você já aprendeu o caminho, não deixe de vir me visitar...” Impossível não lembrar da minha casa bonitinha, da minha cama quente, da minha família unida, dos meus animais me esperando felizes, enfim, EU TENHO UM LAR PARA ONDE VOLTO E SOU ACEITA. Não há explicação, dinheiro, palavras que exprimam o valor dessa frase.
Nesse asilo que fui, conheci um casal, juntos há cinqüenta anos completados no mês passado. Ele, vítima de um derrame, caminha a passos de centímetros, enquanto ela o acompanha de cabeça baixa, não escondendo a tristeza, mesmo após eu lhe dar um grande abraço e ela me sorrir dizendo: “Muito obrigada, era o que eu estava precisando...” A velhice é inevitável para todos nós. Mas após uma vida de lutas, de juventude, de prazeres ou trabalho (ou ambos), não poder escolher sua própria comida, não fazer seus próprios horários, ter que dividir o quarto com pessoas estranhas (e que compulsoriamente, passam a fazer parte de sua rotina), ter sua intimidade devassada, não é mole, não.
Durante a visita, houve um show de sax e o senhor do casal acima, chorava copiosamente durante toda a apresentação. Ninguém entendia nada, mas também não ousaram perguntar. Ao final do dia, ao acompanhá-los para seus quartos – sim, agora eles dormem separados (normas da casa) – eu descobri o mistério. De braço dado comigo a fim de se apoiar melhor, o senhor insistiu que eu o levasse até o final do corredor (cerca de vinte metros) para que ele se despedisse da esposa, que agora mora no andar de cima. Enquanto caminhávamos, ele me contou que havia adorado o show, pois trabalhou a vida inteira tocando numa orquestra...
Num dos poucos intervalos do trabalho, conversei com uma das funcionárias e perguntei sobre o Natal e o Ano Novo que se aproximam. Com o olhar perdido e os olhos cheios de lágrimas, ela me disse apenas: “É triste, muito triste.” – Perguntei quem cuidava dos idosos e ela rapidamente respondeu: “Nós mesmos. Trazemos nossas famílias e fazemos o Natal aqui, porque senão, quem vai ficar com eles nesses dias? As famílias não aprecem o ano inteiro, você acha que eles vêm nessas datas?”
Perguntei também qual a história mais tocante que ela já havia presenciado trabalhando ali e ela me contou que anos atrás, naquele mesmo bairro, havia um homem que chamarei de Pedro, que era dono da maior sorveteria da área. Todos os dias ao chegar para o trabalho, Pedro encontrava um mendigo deitado na porta do estabelecimento. Reclamava, gritava, expulsava o mendigo quase que todos os dias, sem resultado. Um dia, cansado de tanto chamar a atenção do mendigo sem resultado, Pedro enche um balde de a´gua de um dos freezers que estava descongelando e sem pensar duas vezes, joga no homem que dormia bêbado à sua porta.
Seis meses depois, o asilo recebe o mendigo que se recuperava de uma pneumonia adquirida há meses atrás, já que o hospital onde permaneceu internado por quase meio ano, não tinha mais vagas. O mendigo se recuperou e passou a ajudar nos trabalhos domésticos do asilo, em retribuição. Três meses após sua completa recuperação, o asilo recebe um novo morador, trazido pelos filhos que diziam não ter “condições” para cuidar do pai em casa, vítima de um derrame que o deixou completamente paralisado, cadeirante e sem fala. Era Pedro. Hoje, quem empurra a cadeira de Pedro e o ajuda nos cuidados diários é o mesmo mendigo que um dia levou um banho de água gelada...
Muitas são as histórias que ouvi, os abraços que ganhei, o ficar de mãos dadas, assim, em silêncio, com pessoas até então desconhecidas. Energia para muito tempo, agradecimento para todos os segundos de minha vida e lembranças. Lembranças e saudade de todos aqueles que já passaram em minha vida, dos que fazem parte dela e pelos que ainda virão. Realmente, só tenho a agradecer pela oportunidade que a vida me deu para que eu não esqueça o que eu tenho e quem eu sou.
