quarta-feira, 8 de outubro de 2008

NOVOS ARES

Ele acordou com vontade de dizer a ela algumas verdades. Há meses não a via, mas não importava. Nada que um telefonema não resolvesse. Mas não podia ser por telefone, pensava. Ela merecia ver seu olhar, sua raiva, seu desprezo. Antagônico: raiva/desprezo. Ela achava que tinha que tocar sua vida, independente dele. Não podia mais ficar amarrada a algo que não existia. Não existia? Claro que existia, mas somente na intimidade dos dois. Os outros nada sabiam. Saber pra que? Ela não aceitava. Dizia que ele já tinha alcançado muitas coisas na vida – status, dinheiro, cultura, experiências – e ela não. Por covardia, nisso concordavam. Ela tinha medo. Nem sabia do que, mas tinha. Admirava o jeito sedutor, a inteligência, o deslizar de gato que ele tinha – tanto nas palavras quanto no andar. Tudo começou num dia de chuva. O temporal os aproximou, o frio que se formava sugeriu ainda mais intimidade e o beijo foi inevitável. Por meses a fio, as peles se enroscavam, as línguas também, tudo era sempre incontrolável. Ousaram em tudo que fantasiavam, até que nada era mais fantasia, mas lembranças que causavam ainda calor. Ela queria ser apresentada a sociedade, tal qual debutante de antigamente; ele achava bobagem, o importante era viverem aquilo que acontecia com eles. Ela queria papel e só falava em futuro. Mas o que sabemos do futuro? – pensava ele. Ele desanimava a cada dia. Não cobrava, então também não admitia. Sempre fora sincero com ela; ela teve todo direito de escolha. E direito nesse caso também é liberdade. Os encontros foram se tornando escassos. Ele não fazia mais questão de procurar saber porquê. No fundo sabia, mas sua própria escolha era mais importante. Sentia-se em paz por ter vivido, fechado no sem limite. Mas tinha raiva por ela ter sumido sem dar satisfação. Continuava covarde. Os cachorros latem por medo. E no fundo ele sabia que ela não era pra ele. O que realmente importava era o que acontece entre um homem e uma mulher – o resto é simplesmente variável. Afinal, como disse o personagem do Al Pacino em "Perfume de Mulher" : "em um momento se vive uma vida".
Pensando bem, falar pra quê, o que? Ela que fosse feliz com aquele jeito de apenas espreitar a vida.
Ele respirou fundo e abriu as janelas, mais uma vez.

9 comentários:

GUILHERME PIÃO disse...

Após meses, pelo menos a meu modo de ver tomou a decisão certa, ela que seja feliz.
Abraços

*** Cris *** disse...

Olá, td bem?
Acho que uns vivem ao vivo e outros vivem uma gravação...rs
Gostei do seu espaço!
Um abraço!

mundo azul disse...

São situações deveras delicadas... Quando duas pessoas pensam de modo muito diferente, apesar do amor, o relacionamento é difícil...


Beijos de luz!

*** Cris *** disse...

Hum...Muito obrigada pelos elogios ao meu espaço, é sempre muito bom estar rodeada de pessoas que emitem doçura mesmo que seja através de uma telinha fria de um computador, aprendi que aqui há muito mais calor humano que se imagina...rs
Um grande abraço e seja sempre muita bem vinda ao meu blog!

Cadinho RoCo disse...

Tem um momento em que é preciso abrir escancarar as janelas todas.
Cadinho RoCo

Euzinha disse...

Adorei teu blog!
Te linkei no meu!
Beijo beijo

Desarranjo Sintético disse...

Legal o conto.Acredito que na vida real existam muitos casos assim. Acho que a covardia nunca beneficia ninguém, especialmente em casos amorosos...mais fácil deixar tudo claro que deixar desvanecer em sofrimento.

Bjoks.

Fábio.

felipe lima disse...

O inevitável é partir. Nada é pra sempre, por isso, espreitar é desperdício e acomodação. Como dizia Clarice, ou toca ou não toca, não tem meio termo. E além do mais, aparências e status não servem pra nada no mundo real. Um beijo, Carla.

Andréa disse...

Meu Deus!!
Não precisa falar mais nada...
Beijos e tks for all,
Andréa