quinta-feira, 9 de outubro de 2008

DE SALTO ALTO

Em mais uma das discussões intermináveis, ela começou a chorar.
Em meio aos gritos dele, as lágrimas começaram a escorrer devagarzinho, em silêncio, inundando primeiro sua boca, o sal secando seus lábios para escorrerem sob seu colo. Pensou: “Vão longe os tempos em que gotas dele escorriam de minha boca, inundando meu colo...” – Desviou o pensamento disso, não era hora, não era momento e de alguma forma sentia que esse tempo talvez não se repetisse mais. Foi aí que ele percebeu que ela estava chorando. “Cala a boca!” – gritou ainda mais alto. “Para de chorar que você me irrita ainda mais!” – As lágrimas teimavam em descer embora ela quisesse se fazer de forte. Queria nada. Sua vontade era mesmo pôr a boca no mundo, abrir a janela do carro e gritar lá fora que precisava de colo, carinho, precisava de um homem. Sim, porque colo de amiga naquele momento nem pensar. Queria alguém que só de olhá-la sentisse seu coração apertado, seu corpo sedento. Ele estava bem longe disso, bem longe dela. Estendeu um lenço e pediu: “Vai, enxuga isso aí, deixa de besteira!” – Teve vontade de dizer a ele que pegasse o lenço e limpasse essa vida miserável que os dois vinham arrastando há tempos. Nunca entendera porque os homens não suportam mulher chorando. Nunca. Será porque a maioria foi criado para nunca fazer isso? Ficou calada mais uma vez e virou o rosto sem pegar o lenço. Ele o jogou no colo dela. Ela fez que não viu. Não queria nada dele, ou melhor, queria. Tudo. Queria tirar a roupa ali mesmo, mostrar seu corpo como fazia no passado, com ele olhando como um menino que espia pela fechadura – entre a curiosidade e o desejo. Sofregamente abriria os lábios e os encostaria no pescoço dele, com a certeza do resultado visível na pele. O menino viraria homem em questão de minutos e ela voltaria a ser a mulher mais feliz do mundo naqueles braços, naquele momento. O carro parou no farol. Ela abriu a porta, jogou o lenço no banco e saiu andando calmamente, enquanto ouvia os gritos dele chamando-a de louca. O farol abrindo, ele tendo que partir com o carro, ela atravessando a rua de modo a ficar inatingível (mais ainda), sentindo o vento frio bater em seu rosto, secando as lágrimas com as mãos, a cada passo endireitando a postura, sentindo os saltos dos sapatos dando a cadência de seu caminhar, dos quadris, dos cabelos, tal qual uma bailarina. Ao virar a rua, sentiu o olhar de alguns homens que saiam para o almoço. Endireitou-se ainda mais, como só as mulheres sabem fazer e percebeu que não tinha medo. Ela podia tudo. Era só querer. Mas isso já era outra história.

7 comentários:

Euzinha disse...

Adorei teus textos!
Tu escreve muitíssimo bem!
PARABÉNS

Andréa disse...

Meus Deus (parte 2)!!!!
Isso, me faz chorar aqui no escritório, vai...
Acabei de ler seu texto e me vi em tudo alí... a única diferença é que o moço em questão não dirige.
Sabe, fiquei pensando naquilo que você me falou sobre fraqueza. E eu cheguei à conclusão de que realmente não sou fraca e sim, normal.
Sou feita de sentimentos, de carne e osso e memórias.
Tenho a certeza de que isso passará em breve e eu vou poder fazer valer minhas palavras: Eu não viro o ano desse jeito!!

Você é maravilhosa!!! Obrigada!!

Beijos,
Andréa

Cara de 30 disse...

Hmm... Mas um belo texto triste. Quer dizer, o final é bacana... Mas ainda assim é triste. Enfim...

Robson disse...

Nossa Carla, cheguei a vislumbrar a cena...
Quanto a ver mulheres chorando... bem eu não posso pois acabo chorando junto! hahaha!
Bj e uma linda sexta pra vc!

Cadinho RoCo disse...

Qual de nós será capaz de comensurar poder existentes em nós mesmos?
Cadinho RoCo

felipe lima disse...

Essas mulheres precisam se libertar. Que bom que ela saiu do carro!

Rafael Cury disse...

Pobre de nós, homens, que temos nossa dureza derrubada com um simples caminhar de salto alto. Salve as mulheres. Salve você, Carla, lindo texto!