Em mais uma das discussões intermináveis, ela começou a chorar.
Em meio aos gritos dele, as lágrimas começaram a escorrer devagarzinho, em silêncio, inundando primeiro sua boca, o sal secando seus lábios para escorrerem sob seu colo. Pensou: “Vão longe os tempos em que gotas dele escorriam de minha boca, inundando meu colo...” – Desviou o pensamento disso, não era hora, não era momento e de alguma forma sentia que esse tempo talvez não se repetisse mais. Foi aí que ele percebeu que ela estava chorando. “Cala a boca!” – gritou ainda mais alto. “Para de chorar que você me irrita ainda mais!” – As lágrimas teimavam em descer embora ela quisesse se fazer de forte. Queria nada. Sua vontade era mesmo pôr a boca no mundo, abrir a janela do carro e gritar lá fora que precisava de colo, carinho, precisava de um homem. Sim, porque colo de amiga naquele momento nem pensar. Queria alguém que só de olhá-la sentisse seu coração apertado, seu corpo sedento. Ele estava bem longe disso, bem longe dela. Estendeu um lenço e pediu: “Vai, enxuga isso aí, deixa de besteira!” – Teve vontade de dizer a ele que pegasse o lenço e limpasse essa vida miserável que os dois vinham arrastando há tempos. Nunca entendera porque os homens não suportam mulher chorando. Nunca. Será porque a maioria foi criado para nunca fazer isso? Ficou calada mais uma vez e virou o rosto sem pegar o lenço. Ele o jogou no colo dela. Ela fez que não viu. Não queria nada dele, ou melhor, queria. Tudo. Queria tirar a roupa ali mesmo, mostrar seu corpo como fazia no passado, com ele olhando como um menino que espia pela fechadura – entre a curiosidade e o desejo. Sofregamente abriria os lábios e os encostaria no pescoço dele, com a certeza do resultado visível na pele. O menino viraria homem em questão de minutos e ela voltaria a ser a mulher mais feliz do mundo naqueles braços, naquele momento. O carro parou no farol. Ela abriu a porta, jogou o lenço no banco e saiu andando calmamente, enquanto ouvia os gritos dele chamando-a de louca. O farol abrindo, ele tendo que partir com o carro, ela atravessando a rua de modo a ficar inatingível (mais ainda), sentindo o vento frio bater em seu rosto, secando as lágrimas com as mãos, a cada passo endireitando a postura, sentindo os saltos dos sapatos dando a cadência de seu caminhar, dos quadris, dos cabelos, tal qual uma bailarina. Ao virar a rua, sentiu o olhar de alguns homens que saiam para o almoço. Endireitou-se ainda mais, como só as mulheres sabem fazer e percebeu que não tinha medo. Ela podia tudo. Era só querer. Mas isso já era outra história.
