sábado, 18 de outubro de 2008

SONHO?

Acordou sobressaltado. Após o almoço havia deitado no sofá da sala para um pequeno cochilo. Sonhara que estava caminhando em um parque, quando foi abordado por uma moça alta, morena, com uns óculos escuros e engraçados. Sem pestanejar a moça veio caminhando em sua direção e ao chegar a sua frente colocou-lhe a mão no ombro dizendo:"-Tem fogo?" - Waldomiro estranhou aquela atitude da moça desconhecida. Teve a certeza de que por baixo daqueles óculos tão escuros, olhos ainda mais escuros o fitavam indagadores. Apalpou os bolsos da calça, abriu a maleta que carregava (sim, sempre que saía carregava sua velha maleta) – procurou dentro dela e só então se lembrou que não fumava. Olhou para a moça parada a sua frente e com um calafrio a percorrer-lhe a espinha balbuciou: "- Não, não fumo..." - A moça até então imóvel, tirou os óculos escuros lentamente e provou que ele não se enganara: fixou profundos olhos negros nele e disse: "- Então me paga uma água..." - Sem saber como reagir, Waldomiro atônito não só com os olhos, a atitude, mas também com a beleza que emanava daquela desconhecida, concordou rapidamente. Foram andando pela calçada e entraram no primeiro boteco (sim, boteco, porque estavam no centro da cidade e lá botecos existem por toda a parte). Resolvida, a desconhecida foi logo pedindo a água e uma caixa de fósforos. Ele também pediu água e após o primeiro gole, pode observar melhor a criatura que se sentava a seu lado, vestida num terninho chique, desses que as moças que trabalham em grandes escritórios usam. As atitudes não combinavam com o que via, mas sem parecer se importar com esses detalhes, a moça acendeu o cigarro e deu uma longa tragada, como se há muito tempo não fizesse isso. Tomou mais um gole da água e virando-se lentamente pra ele, cruzou as pernas e perguntou:"- E aí? Tudo bem?" - Ora, ele esperava qualquer pergunta menos aquela. Olhou bem pra ela, sem esconder certa malícia no olhar e disse: " - Pode ficar ainda melhor, beleza..." - Ela empertigou-se na cadeira e visivelmente contrariada respondeu secamente: "- Se você está me confundindo com certo tipo de mulher, vou logo adiantando: precisava de alguém pra conversar e escolhi você. Não sou o que você está pensando! " - Ele completamente sem graça tentou argumentar: "- Não, veja... Você me entendeu mal..." - " - Entendi mal, não! Conheço perfeitamente tipos como você! Não podem ver uma mulher sozinha que já partem pra cima! O que você está pensando? Senti-me só, achei que você tinha cara de boa gente, estou passando um momento difícil e gostaria de conversar, desabafar com alguém! Escolhi você vi um olhar tranqüilo, mas vejo que me enganei! Não dá pra confiar mesmo nos homens! "– E inesperadamente caiu no choro, agarrando-se ao pescoço de um Waldomiro que cada vez mais entendia menos. "- Calma..."– Começou ele, sem saber onde colocava as mãos. Tinha medo de corresponder ao abraço e ser tachado de aproveitador; de não abraçá-la e ela sentir-se ainda mais sozinha... Na dúvida, passou os braços em torno da cintura da moça e a aconchegou em seu ombro, dizendo-lhe palavras consoladoras. – "Calma... Seja o que for que tenha acontecido, vai passar... Vamos conversar me deixa saber um pouco mais de você. Nem sei ainda seu nome!" - Sem soltar do pescoço de Waldomiro a moça olhou-o fixamente, com as lágrimas a escorrer pelo rosto e disse entre soluços:"- Maitê, meu nome é Maitê... E o seu?" - "- Waldomiro." - Ele levou a mão vagarosamente até os cabelos da desconhecida Maitê e os afagou com delicadeza. Sentiu que ela suspirou profundamente com o gesto dele e virou-se para o balcão para apagar o cigarro num cinzeiro cheio de bitucas que jazia por ali. Deu mais um gole na água e virou-se pra ele com um brilho agradecido no olhar. "-Desculpe se o julguei mal... Ouvimos tantas coisas horríveis por aí... Ainda mais quando se é mulher..."– E fez um biquinho com a boca ao pronunciar as últimas palavras que imediatamente conquistou Waldomiro. Ela tinha uma inocência, um mistério, algo que ele não sabia definir, mas que definitivamente fazia seu tipo. Tirou o lenço do bolso (sim, ainda era um dos poucos homens que usavam lenço), e deu-o a ela. Maitê, mais calma, enxugou as lágrimas e esboçou um pequeno sorriso de agradecimento. Pensou: “Só cavalheiros de verdade oferecem o lenço a uma dama.” Ele ofereceu um café, que ela prontamente aceitou, agradecendo. Os cafés chegaram quentes e de bule, como convém a um bom boteco e ele aproveitou a deixa após o primeiro gole: "- Se tiver vontade, conte Maitê, o que te deixou tão triste." - A moça olhou pra ele com aqueles olhos com os quais ele já estava se acostumando e respondeu: "- Há muito tempo procuro alguém para compartilhar minha vida. Em vão, porque à medida que o tempo passa, percebo que esse sonho continua distante. Conheci muitas pessoas, mas nenhuma fez com que eu tivesse vontade de me entregar, conversar por toda a vida. Hoje resolvi sair sem rumo, distante dos lugares que freqüento, dos amigos que tenho. Resolvi conhecer alguém e então surgiu você. Sei que minha abordagem pode ter parecido radical, mas eu também não queria ter deixado passar essa oportunidade! Senti que você era especial!" - Waldomiro a essa altura já estava nas nuvens! Uma moça daquele tipo, fina, bonita, alta e dando bola pra ele? Como era possível? Se alguém estava prestes a realizar algum sonho, só podia ser ele! Sendo vendedor de planos de saúde há muito tempo, sabia valorizar a vida. Não deixaria essa mulher escapar por nada! "- Maitê querida, – sentia-se mais intímo a cada minuto – por que não vamos almoçar? Aqui perto tem um pequeno restaurante de um conhecido meu e lá poderemos conversar com mais tranqüilidade. O que acha?" - A moça esboçou uma dúvida no olhar, mas logo abriu um sorriso e aceitou a delicadeza. Waldomiro pagou a conta e saíram de braço dado, caminhando em direção ao restaurante. Após meia-hora de conversa, já se consideravam amigos de infância, daqueles que podemos contar tudo, com a certeza de sermos eternamente compreendidos. O almoço transcorreu animado, cada um contando histórias vividas, alegres ou não, histórias da vida. Maitê disse que era uma das administradoras numa grande empresa e que isso lhe dava facilidades como não precisar voltar para o trabalho naquele dia. Foi a deixa que Waldomiro esperava. Para irem ao apartamento dele foi um pulo. Ao chegarem o rapaz foi logo se desculpando pela bagunça, casa de homem solteiro é assim mesmo, não repare e ao mesmo tempo lembrando-se da última vez que uma mulher adentrara ali. Tinha sido a faxineira do 103 para limpar ou a vizinha do 95 com o zelador para fechar o registro que estava vazando? Não importava. Importante agora era aquela mulher maravilhosa ali, ao seu lado. Sentaram juntinhos no sofá, já de mãos dadas, pois as horas de conversa no restaurante já lhes permitia tal intimidade. Maitê agradecia o almoço, a tarde maravilhosa, o papo agradável. Waldomiro pensava nos planos que tinha que vender ainda hoje para cumprir sua meta com o chefe, mas apenas por um breve momento. Logo a seguir, seu pensamento, seu corpo todo se concentrava na mulher a seu lado. Ela encostou a cabeça em seu ombro e devagarzinho passava uma das mãos nos cabelos do rapaz. Ele estava no céu! Quem disse que sonhos não se realizam? Lentamente foram aproximando os lábios até culminarem num beijo que ele jamais esqueceria o gosto. Ao longe, Waldomiro escutou um som que não soube distinguir num primeiro momento. Nada importava. Só Maitê e ele. O sonho que se realizava. O som insistiu. Sobressaltado Waldomiro acordou. Era a campainha. Ainda com o gosto do beijo e o perfume de Maitê na lembrança, sentou e voltou à realidade. Seu apartamento simples, o sofá rasgado num dos braços, a meta que tinha que cumprir com o chefe. – Logo vi que era bom demais! – pensou. A campainha insistiu pela terceira vez. Irritado Waldomiro se levantou num só pulo e abriu a porta: "- Quem é caramba?" - Do outro lado, uma moça alta, morena, com uns olhos negros lindíssimos se assustou com a aspereza de Waldomiro que até deu um passo pra trás, antes de dizer: "- Oi... Será que você pode me emprestar um fósforo? Acabei de me mudar aí do lado e não tenho nada para acender o fogão..." - Atônito beliscava sua perna discretamente para ter a certeza de que havia acordado. Não, não era sonho. - "- Cla..ro..." – respondeu gaguejando, tentando arrumar os cabelos desgrenhados pelo cochilo. – "Entre, vou pegar os fósforos pra você... Não repare, casa de homem solteiro é mesmo uma bagunça!" Ela entrou cheia de charme, caminhando devagar, enquanto dizia: "- Não tem problema não, eu entendo. Ah, se não for pedir demais, você pode me arranjar água? Ainda não ligaram a minha e nem sei como vou tomar banho hoje..." - disse enquanto abria um lindo sorriso. E ainda tem gente que não acredita em sonhos.

8 comentários:

Cara de 30 disse...

Que beleza de crônicas, hein?! É daquelas que você vai lendo e torcendo pra não acabar... Só pra você se divertir mais um pouquinho. Parabéns.

Flávia disse...

eu acredito =))

beijos!

Afobório disse...

hahahahahahahaha, é isso que é bom.


a imaginação não tem limite, muito boa.

obrigado pelo comentário.
sorte e luz.

Luiz Calcagno disse...

Não. Não dá pra acreditar. O fim podia não ter nada a ver com o sonho. Fiquei achando o tempo todo que ela ia passar a perna nele em algum momento, e passou. Agora não sei o que pensar. Boa lição.

Veronica Kraemer disse...

AMEIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!
Vivemos e sonhamos...
Bjosssssssss e parabéns, Carla querida!!!

Robson disse...

Hmmm olha vou confessar, acho cigarros uma atrocidade pra saude de quem fuma e seus adjacentes, mas tem mulheres que ficam lindas fumando, até hipnotiza... maitê tem cara de ser assim.
Bj

GUILHERME PIÃO disse...

Tambem acredito em sonhos e por sinal tenho 3 :
1 - Ser bonito como toda mãe acha que seu filho é;
2 - Ter todo o dinheiro que meus filhos acham que tenho;
3 - Sair com todas as mulheres que a minha mulher acha que saí...
Abraços

Michelle Dangeli disse...

Hahahahaha, muito boa essa crônica. AMEI o texto. Waldomiro, homem de sorte, hehehe.