quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

VOCÊ TEM FOME DE QUE?

Realmente o mundo é muito vasto. E repleto de oportunidades quando nos dispomos a observá-las. Viajar é um grande exercício de observação. Tenho um conhecido que diz que quando queremos realmente conhecer alguém, basta convidar para viajar. Nada mais certo. Viajar com alguém significa compartilhar gostos, horários, vontades, ou não. Toda viagem é uma descoberta tanto dos lugares (mesmo que já tenhamos ido outras vezes) quanto das pessoas que lá habitam, porque nunca somos os mesmos e nosso olhar muda através dos anos. É como ler um livro pela segunda vez após um grande intervalo de tempo entre uma leitura e outra. Observar é um pouco complicado. Sim, porque nem todos observam as mesmas coisas ao mesmo tempo e é justamente aí que surgem diferentes leituras para um mesmo fato. A pequena menina que observa a mãe preparar a mamadeira do irmão mais novo, que chora no colo da última com fome, revela num primeiro momento um olhar atento, de enternecimento pela beleza do bebê. A mamadeira fica pronta, a mãe a entrega ao pequenino que mama avidamente. A menininha puxa o vestido da mãe e diz: “Também tenho fome...” – E a mãe ali, atrapalhada com sacolas, bebê, mamadeira, sem olhar para a pequena responde: “Toma água.” A menina enruga o queixo, pisca algumas vezes e começa a chorar baixinho: “Não quero água, quero comida...” A mãe continua a amamentar o menino sem olhar para os lados e diz: “Então espera.” A menina senta no chão e com a cabeça entre os joelhos chora baixinho, esperando. Como é difícil alimentar quem tem fome quando não temos o alimento certo pra dar... Uma amiga da mãe que até então estava distante (talvez tenha ido matar a própria fome) aparece e pergunta pra menininha porque ela chora. A menininha explica que tem fome. A amiga pega a menina no colo, olha pra ela, enxuga-lhe as lágrimas e diz: “Espera só um pouquinho que já iremos para um lugar onde tem uma lanchonete bacana onde poderemos almoçar juntinhas.” – E lhe afaga os cabelos com as mãos. A menina imediatamente para de chorar e abraça a amiga da mãe, sorrindo. Quantas vezes não basta SÓ um olhar para nos saciar (ainda que temporariamente) a fome? A mãe continua alheia com o bebê no colo e a mamadeira. Coincidência ou não, em meu retorno encontro o quarteto outra vez. Dessa vez a menininha está num carrinho com o pé engessado. Ouço os comentários da mãe para quem pergunta sobre o que aconteceu: “É que ela é distraída, ansiosa, esbarra em tudo, está sempre correndo, não dá sossego!” Olho para o pézinho engessado, a carinha triste por não ter tido as férias sonhadas e estar enclausurada num carrinho. Penso nas repercussões emocionais das duas cenas que presenciei na vida da menininha. Imagino como será o dia dela durante o ano inteiro. Penso nas milhares de pessoas do mundo que também não encontram o alimento certo. E como cada um faz para encontrá-lo. O irmãozinho? Dorme tranquilamente no colo da mãe. A amiga? Revela um semblante tão triste quanto o da pequena. Talvez até mais, por saber o quanto a confiança se torne um dos mais importantes temperos para qualquer alimento.

4 comentários:

Cris Animal disse...

Emocionante e observador...Observador na ternura!
beijo
................Cris Animal

Dama de Cinzas disse...

É verdade, minha amiga! Eu passei fome alguns dias quando criança e sei que é muito ruim. O que acontece com a gente enquanto somos criança parece que fica registrado de forma inalterada pelo resto da vida...

Beijocas

Elaine disse...

Olá!
Curioso como os pais nem sempre percebem as necessidades dos filhos, né?
E você tem razão quando diz que pequenos eventos nos marcam.Para sempre.
Ah, voltei, graças a Deus.

Dany disse...

Linda, a sua observação!
É triste que uma mãe, por ter dois filhos, por não ter tempo, por ter muitas coisas a fazer, acabe superprotegendo um e "renegando" o outro... a falta de paciência gera isso! talvez essa criança se torne frustrada, rebelde quando crescer, talvez receba mais atenção e carinho de outras partes e siga entendendo que a mãe não é assim pq quer, mas por que tem uma vida assoberbada demais!
E ainda há que o mais novinho cresça e a mãe comece a tratar tal qual trata a mai velha... vai saber!? Algumas mulheres simplesmente não tem "dom" pra maternidade!
Bjos, querida!