A lenda egípcia diz que ao tentar entrar no Reino dos Céus, o respectivo porteiro faz duas perguntas: “Fostes feliz nesta vida?” e “Fizeste alguém feliz nesta vida?” – Caso a resposta for negativa em qualquer uma delas, adeus Céu! - Bobagem - ele pensou. E jogou o panfleto no lixo mais próximo. Não acreditava mesmo nessas coisas espirituais. Aprendera desde cedo a buscar seu próprio sustento e nunca tinha parado pra pensar em besteiras como essas. Uma coisa era fato: ele tinha medo. Não sabia bem de quê, mas um medo avassalador encarcerava sua alma. Às vezes acreditava que boicotava a si mesmo, porque ser feliz não era pra ele. Sempre que algo de muito bom começava a ficar ainda melhor, ele se angustiava. “Angústia” – etimologicamente o mesmo que lugar estreito... Ou seja, “um parto”, pensou. E a porta cada vez mais estreita...
A vida é feita de escolhas e ele nem sempre sabia o que escolher. Imagine encontrar o tal porteiro lá do Egito... Nem pensar! Essa liberdade de poder fazer o que quisesse o deixava em pânico! Ao olhar pelo retrovisor da vida, via cenas já esmaecidas que mostravam o quanto havia sido fraco, rude, burro, dentre tantos outros “atributos”. Suas escolhas o tinham levado a isso. Era cruel, mas verdadeiro. Em muitas não tinha culpa, pois acreditava que esta só aparece quando sabemos que estamos escolhendo algo que não é pra nós. Outras, por inexperiência, burrice, falta de orientação, ignorância mesmo, não se via culpado, pois simplesmente não sabia. Em muitos momentos da vida se deparou com valores que importavam mais que os interesses mundanos. E vice-versa. Hoje sabia o peso de ser honesto, sobretudo consigo mesmo. Perdera a visão embrutecida de se achar pior que qualquer ser humano da face da Terra. Aos poucos fora compreendendo que viver já implica escolher. A liberdade é tanta que podemos decidir sobre isso a qualquer momento. Entendera que só se olhando inteiro todos os dias (e cada dia descobria uma nova face de si mesmo) é que se sentia cada vez mais vivo. E imediatamente pensou que já tinha uma resposta afirmativa para o “porteiro egípcio”.
