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domingo, 26 de outubro de 2008

PORTA ABERTA

Calor. Noite abafada. O barulho de vozes comemorando não sei o que invadem as orelhas de vez em quando. O corpo está suado. Cansado. Molhado. O mundo é tão grande e ele ali, preso como um passarinho que não sabe mais voar. Tem a chave da porta, a gasolina no carro, o dinheiro contado, mas necessário. A noite mal começou. Sente seu corpo totalmente desperto, com vontades. Não ganas. Com desejos e lembranças, com pensamentos libidinosos que como flashes ofuscam seu bom senso. Vontade de partir, de sumir. Mentira. Vontade de amar, de fazer sexo gostoso, com o mesmo calor da noite abafada. Na borda da banheira, segurando forte. Sexo pra ele nunca foi brincadeira. Podia se aproximar por um olhar, por um modo de segurar o copo, pelo sorriso, e claro, também pelo corpo. Mas se o papo fosse bom, o resto prometia. Literalmente. O suor escorria pelas costas. Nenhuma brisa, só a noite cada vez mais modorrenta. Não queria uma aventura. Só se fosse com uma pessoa muito, muito interessante. Que não falasse sempre das mesmas coisas que os jornais, revistas e TV estampam por aí, que suspirasse com coisas simples, gostasse de água, de Sol, de terra, de bichos, de mar. Não queria companhia, queria proximidade. Não efusividade, cumplicidade. Nada pra sempre, mas o necessário para que se sentisse apenas vivo. Não queria saber a história toda, só aquela que começasse no exato instante que os olhos se encontrassem. Nem sempre histórias levam tempo para serem construídas. Quantas vezes não viveu ou envelheceu dez anos em um segundo? Não queria mais alguém na multidão. Muito ao contrário. Queria a simplicidade de ser livre.Por dentro.

domingo, 14 de setembro de 2008

AMBIVALÊNCIAS

Hoje li um artigo sobre as cartas deixadas pelo escritor João Guimarães Rosa (Grande Sertão Veredas) para sua esposa Aracy. Perto de completar cem anos, ela sofre do Mal de Alzheimer, mas o grande amor que vivenciou com João, ficará para sempre estampado em longas cartas de amor. Ara, como era chamada pelo marido, foi o segundo casamento dele. Jeito de atriz internacional, beleza de vedete, inteligência feminina avassaladora para a época, tinha segundo ele “uma boquinha para ser beijada”, dentre outros elogios. Segundo amigos e conhecidos do casal, os dois compartilhavam tudo, inclusive a leitura dos rascunhos dos livros de Guimarães, bastando citar que “Grande Sertão Veredas”, sua obra máxima foi dado e não apenas ofertado, segundo o próprio autor para Aracy. Um amor que ficará para a Eternidade, do tamanho do legado deixado pelo escritos. Por outro lado, li também um caso onde um leitor queixava-se de que sua esposa quer fazer amor a toda hora. O psicanalista responsável em responder essa missiva disse que isso é perfeitamente normal, pois nada impede que uma mulher tenha mais desejo sexual que este ou aquele homem – e vice-versa. Que a convivência acaba por trazer cumplicidade, confiança, conversa, troca de olhares, pensamentos e inúmeras coisas boas, mas que com o tempo qualquer mulher passa a ser vista por qualquer homem como uma simples “paisagem”. Será?
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