Todo final de ano é a mesma coisa em muitos lugares: ceia, presentes, correria, reuniões familiares e hipocrisia. Sim, isso mesmo caro leitor: hipocrisia. Durante alguns dias muitas pessoas resolvem ser ou demonstrar aquilo que não conseguiram durante todo o ano: paciência, compreensão, aceitação e até mesmo – pasmem – ouvir o próximo (ou o que até então se manteve distante). O exercício da hipocrisia aparece em diversas variações: donativos para instituições, visitas a parentes/amigos com os quais não se teve a menor interação durante o ano todo, “perdão/esquecimento” do passado recente ou remoto, afinal é NATAL/ANO NOVO!
Do aniversariante mesmo poucos sequer se lembram. Vale combinar onde será a ceia, quem levará o que, quem irá, as bebedeiras, a comilança, a lavação de roupa suja (que invariavelmente surge praticamente do nada) e que demorará várias encarnações para ser esquecida – sim, porque a maioria das pessoas “perdoa, mas não esquece”, as fotos (nelas todos são felizes geralmente), além de diversas exibições de poder: quem tem o emprego melhor, o filho mais inteligente, mais crescido, quem viajou mais, quem foi melhor/pior sucedido durante o ano e por aí afora. Haja otimismo e ouvidos moucos para terminar a noite tranquilamente... Na maioria das vezes tudo dura exatamente o tempo dos festejos de final de ano. Mas, dizem as más línguas que neste nosso amado País tudo começa após o Carnaval; sendo assim, temos um pouco mais de tempo para que tudo, mas tudo mesmo volte a ser como antes no quartel de Abrantes. A seguir os encontros escassearão, os telefonemas irão beirar a inexistência, nada de peru, tender, farofa, bolo, panetone, porque durante todo o ano só se pensa em dieta ou não se tem quase tempo de comer direito, porque a vida urge lá fora, o trabalho nos chama, o tempo cada vez mais escasso. Nada de parentes/amigos se lamentando/vangloriando, nada de encontros “sociais”, nada de sorrisos amarelos no álbum de fotografias.
Tenho um amigo que acabou com seu perfil no Orkut. A explicação dada foi a de que quem gosta dele, sabe onde o encontrar e convive o ano todo, bebendo, telefonando, conversando, rindo, se abraçando, etc, etc, etc. Acredito nisso piamente na época das Festas. Bom mesmo é ter quem se gosta ao lado, quem ficou com você ali, no dia a dia, quando você acorda resmungando, xingando a pobre segunda-feira. Bonito é ver a instituição que você participa o ano todo como voluntário fazendo a CONFRATERNIZAÇÃO, não apenas uma reunião. Sincero é você poder dizer o que pensa com a certeza de que todos podem não concordar, mas respeitam sua opinião – não criando polêmicas sem sentido. Gostoso é você dividir seu amor com seu gato, cachorro, lixeiro, carteiro, funcionários, amigos e familiares não apenas numa convenção social, mas porque você reconhece e também aceita o amor sincero que vem deles.
Importante mesmo é você lembrar-se do aniversariante do dia 25/12 durante todo o ano e carregá-lo junto a você, em seus atos, pensamentos e não só porque recebe milhares de emails nessa época pedindo para que seja lembrado.
Ser sincero conosco mesmo é um passo nada fácil e como tudo nessa vida, tem seu preço. Uma consciência tranqüila não tem preço. Algumas coisas posso não saber como quero ou por que quero, mas o QUE EU NÃO QUERO, ah, isso eu já tenho certeza absoluta!


